Relacionamentos Abertos
- Ramon Bennett

- 12 de out. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 12 de out. de 2025
Falar sobre relacionamentos abertos é, antes de tudo, falar sobre a coragem de nomear o desejo — e de assumir que o amor, por mais sublime que seja, não elimina a curiosidade, a fantasia ou a necessidade de expansão. Mas abrir uma relação não é o mesmo que abrir uma porta. É abrir o próprio espelho.
Em uma cultura que ainda confunde fidelidade com controle, o casal que decide explorar outros vínculos precisa de uma maturidade emocional rara: saber que a liberdade só é possível quando há verdade, e que o desejo só floresce onde há confiança.
Amar é um gesto que ultrapassa o mapa da exclusividade. Mas quando se ousa abrir a porta do desejo — permitir que mais de um corpo ou de uma alma possa existir para além do par — surge um novo território: o relacionamento aberto. Aqui, não falo de promiscuidade nem de abandono, mas de um pacto sensível entre a ética, a vulnerabilidade e o mistério do amor.Para quem ousa essa travessia, é urgente mergulhar também nas evidências científicas — para que não se navegue à deriva, mas com bússola interior.
Relações abertas fazem parte do espectro da não-monogamia consensual (CNM, do inglês consensual non-monogamy) — em que parceiros concordam em permitir vínculos sexuais ou afetivos fora da relação principal, com conhecimento e consentimento mútuo.
Segundo revisões recentes, cerca de 5% ou mais da população da América do Norte já se encontra em algum tipo de CNM, e não há diferença clara nos níveis de qualidade relacional entre monogamia e CNM.
Num estudo canadense com amostra representativa (2.003 adultos), 4% relataram estar em relação aberta no momento da pesquisa, enquanto 20% disseram já ter tido uma relação aberta no passado. Curiosamente, 12% indicaram esse modelo como ideal para si. Estudos consistentes mostram que pessoas em relações abertas relatam níveis de satisfação e confiança comparáveis (e às vezes superiores) aos de casais monogâmicos. Por exemplo, um estudo da Universidade de Michigan constatou que casais heterossexuais em relações abertas relatavam altos níveis de confiança e satisfação, com baixos níveis de ciúme.
Uma meta-análise recente envolvendo cerca de 25 mil participantes na Austrália apontou que modelos como “open”, “polyamory” e “monogamish” apresentam níveis de felicidade e intimidade equivalentes aos modelos monogâmicos — desafiando o mito da superioridade monogâmica.
Por que alguns casais escolhem abrir seu vínculo?
Desejo de exploração sexual sem negação legítima.
Busca por vivência mais autêntica, onde a fidelidade não é imposta, mas negociada.
Alívio da pressão de “ser tudo para alguém”.
Transformação cultural e questionamento dos modelos normativos. Alguns relatos apontam que essa escolha fortalece a intimidade central, justamente pela transparência e cuidado — ao invés de corroer.
Muitos casais chegam ao modelo aberto tentando salvar uma relação desgastada. Outros o escolhem por convicção, por acreditar que o amor não se limita à exclusividade. Mas o que poucos compreendem é que o relacionamento aberto não é um antídoto contra o tédio, e sim um espelho ampliado da relação original. Tudo o que está mal resolvido — ciúme, insegurança, medo de rejeição, necessidade de aprovação — tende a se intensificar. A abertura não dissolve os conflitos, apenas os ilumina sob uma nova luz.
Ser livre não significa ser disperso. Os relacionamentos abertos mais saudáveis são aqueles guiados por valores claros e acordos éticos: respeito, consentimento, comunicação constante e cuidado mútuo. Quando bem vividos, eles podem se tornar laboratórios de autoconhecimento e empatia, onde o amor deixa de ser posse e se torna presença. Mas quando nascem do medo de perder ou da tentativa de evitar a solidão, transformam-se em um labirinto emocional — cheio de saídas que não levam a lugar algum.
Para transformar o salto no abismo em ponte de encontro, alguns pilares são fundamentais:
Pilar | Importância | Estratégias práticas |
Comunicação aberta & contínua | Sem diálogo transparente todo arranjo desmorona | Reuniões regulares, check-ins emocionais, linguagem clara, terapia de casais |
Acordos claros e flexíveis | Arbitragem ética entre liberdade e segurança | Definição de limites, cláusulas de retração, revisões periódicas |
Autoconhecimento profundo | Saber de si para lidar com o outro | Terapia individual, trabalho interno, confrontação de sombras |
Empatia e compersão | Alegria com a felicidade alheia | Cultivar compersão (alegrar-se com o prazer do outro) |
Planejamento sexual seguro | Saúde como prioridade | Uso de proteção, testes regulares, transparência sexual |
Resiliência e paciência | Nem todo dia será liso | Saber que a estabilidade emocional é construída |
Não existe receita pronta para viver um relacionamento aberto — cada casal traça seus contornos. A ciência indica que a satisfação pode ser equivalente entre casais abertos e monogâmicos. Mas não garante que a travessia será suave.É uma aventura de coragem, onde o risco é transformar a própria intimidade — não para escapar dela, mas para ressignificá-la.
Se o amor é um tecido que se estende, o relacionamento aberto é um experimento no tear do desejo consciente. Que seja tecido com gentileza, respeito e potência.
Nenhum modelo relacional é mais evoluído que o outro. O que torna um relacionamento nobre é a consciência com que ele é vivido.Há quem encontre plenitude na exclusividade, há quem floresça na liberdade. Em ambos os casos, o desafio é o mesmo: amar sem aprisionar, desejar sem ferir, viver sem se perder de si mesmo.
O relacionamento aberto pode ser uma experiência de expansão e profundidade, desde que sustentado por autoconhecimento, empatia e diálogo honesto. Abrir o relacionamento não é abrir o corpo — é abrir a escuta, o olhar e o sentido do amor.

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