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Neurodesign e TDAH: construindo ambientes adaptáveis

  • Foto do escritor: Ramon Bennett
    Ramon Bennett
  • 3 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

O presente artigo propõe uma reflexão sobre o papel do neurodesign na criação de ambientes adaptáveis para indivíduos com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Considerando que o design de interiores pode influenciar diretamente o comportamento, a cognição e o bem-estar, o estudo apresenta estratégias sensoriais, cromáticas, espaciais e luminosas que visam reduzir a sobrecarga cognitiva e favorecer o foco, a calma e a funcionalidade. A abordagem busca integrar estética e neurociência, revelando o espaço como um co-terapeuta, capaz de mediar a relação entre mente e ambiente.


O neurodesign parte do princípio de que os espaços afetam o cérebro e, portanto, influenciam emoções, produtividade e saúde mental. Em indivíduos com TDAH, esse impacto é ainda mais evidente, uma vez que o cérebro hiperativo e disperso é altamente sensível a estímulos visuais, sonoros e táteis.


Projetar ambientes para pessoas com TDAH exige compreender o sistema nervoso como cliente: o design não é apenas uma questão estética, mas uma ferramenta de autorregulação sensorial. O objetivo deste estudo é propor diretrizes práticas e conceituais para a criação de ambientes adaptáveis, capazes de equilibrar estímulo e serenidade.


Pesquisas em neurociência ambiental indicam que o design influencia a produção de neurotransmissores como dopamina e serotonina, afetando diretamente a atenção e o humor (KAY, 2019). Para pessoas com TDAH, ambientes caóticos aumentam a distração e a impulsividade, enquanto espaços organizados, previsíveis e sensorialmente equilibrados reduzem a carga cognitiva (BROWN, 2021).


O conceito de neurodesign adaptável propõe uma arquitetura que responde às variações mentais e emocionais do usuário. Para indivíduos com TDAH, o espaço precisa oferecer estrutura sem rigidez, permitindo foco quando necessário e movimento quando o corpo pede variação. Ambientes previsíveis reduzem a ansiedade. O uso de linhas simples, simetria e disposição lógica dos elementos visuais ajuda o cérebro a antecipar o espaço. A organização visível, com prateleiras abertas e etiquetas discretas, minimiza esquecimentos e reforça o senso de controle.


As cores neutras e frias, como bege, cinza-claro, azul e verde acinzentado, acalmam a mente. Luzes ajustáveis e difusas permitem modular o nível de atenção. O acesso à luz natural estimula a dopamina e melhora o ritmo circadiano, favorecendo a concentração. Superfícies naturais e táteis (madeira, linho, algodão, pedra polida) promovem presença sensorial e reduzem a dispersão mental. O toque atua como âncora cognitiva, reconectando o indivíduo ao momento presente.


O ruído é um dos principais inimigos da atenção. Materiais absorventes acústicos (tapetes, cortinas, painéis de EVA ou lã mineral) devem ser priorizados. Sons ambientes suaves, como água corrente ou ruído branco, ajudam a criar um pano de fundo cognitivo estável. O TDAH busca movimento; portanto, o ambiente deve oferecer variação funcional. Pequenas estações de foco (mesa, poltrona, canto de leitura) permitem alternância sem quebra de produtividade. Essa fragmentação organizada ajuda o cérebro a renovar a atenção sem sobrecarga.


Abaixo deixo sugestões para aplicações práticas para projetos

  • Ambiente Doméstico

  • Isolar a mesa de trabalho de janelas e passagens.

  • Utilizar divisórias baixas e estantes para organizar a visão.

  • Criar murais visuais de metas curtas e lembretes táteis.

  • Evitar excesso decorativo: poucos objetos, mas significativos.

  • Espaço Terapêutico

  • Zonas alternadas de foco e relaxamento.

  • Iluminação quente, difusa, ajustável.

  • Aromas sutis (lavanda, alecrim) que modulam a atenção.

  • Ambiente Educacional ou Corporativo

  • Layout híbrido: áreas de concentração e de pausa.

  • Cadeiras ergonômicas, mesas modulares e cores calmantes.

  • Plantas naturais como estímulos orgânicos de atenção plena.


O neurodesign oferece uma ponte entre o cérebro e o ambiente. Para indivíduos com TDAH, o design adaptável é mais do que estética: é a diferença entre produção e procrastinação. Ao projetar espaços previsíveis, sensoriais e moduláveis, o designer atua como mediador entre o caos e o foco, criando não apenas lugares de habitação, mas ambientes de equilíbrio neurológico. Ambientes neuroadaptados tornam-se verdadeiramente eficazes quando associados a rituais cotidianos que reforçam a organização e a estabilidade mental. No caso de pessoas com TDAH, o espaço deve facilitar a criação de hábitos que reduzam a dispersão e ampliem a sensação de propósito.


Abaixo deixo algumas sugestões de como melhorar a rotina nos ambientes:

  • Rotinas sugeridas para o ambiente doméstico

  • Ritual matinal: abra cortinas, ajustar a iluminação natural e colocar uma música leve. Isso estimula dopamina e prepara o cérebro para o foco.

  • Zona de ativação: mantenha uma área visualmente limpa com objetos de trabalho prontos; começar o dia eliminando distrações físicas.

  • Sessões de foco curtas (Pomodoro sensorial): 25 minutos de concentração seguidos por 5 minutos de pausa tátil (alongamento, toque em texturas naturais).

  • Checklist visual: use quadros, ícones ou cores para marcar tarefas. O cérebro TDAH responde melhor a estímulos visuais do que verbais.

  • Ritual noturno: luzes quentes e música suave 30 minutos antes de dormir; o espaço comunica ao cérebro que é hora de desacelerar.


No ambiente de trabalho:

  • Estabeleça ritmos de foco e pausa (ex: 90 min de trabalho, 15 min de descanso).

  • Crie duas áreas distintas: uma de criação (mais livre e visual) e outra de execução (neutra e organizada).

  • Use aromas pontuais (hortelã, limão, alecrim) para reativar o foco durante tarefas repetitivas.


No ambiente educacional:

  • Alterne atividades visuais, auditivas e táteis para evitar a monotonia.

  • Crie microrituais de transição: uma frase, um toque de sino, ou mudança de iluminação sinalizando troca de atividade.

  • Reforce a previsibilidade com quadros de horários visíveis e símbolos de pausa.


Esses pequenos rituais transformam o espaço em uma extensão do sistema nervoso, em um ambiente que ensina o cérebro a respirar, focar e descansar.



Referências

BROWN, T. Attention Deficit Spaces: Environmental Design for ADHD Minds. New York: DesignMind Press, 2021.

KAY, S. Neuroarchitecture and the Senses: How Design Shapes the Brain. London: Routledge, 2019.

MALIK, R. Cognitive Ergonomics in Interior Design. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2020.

LIPTON, B. The Biology of Belief. Hay House, 2016.

NEWMAN, P. The Healing Power of Space. New York: Harper Design, 2022.



 Cérebro rodeado de luz neon
Cérebro rodeado de luz neon


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