A crise da masculinidade contemporânea
- Ramon Bennett
- 14 de mai.
- 4 min de leitura
Quando o cuidado deixa de ser cuidado? Há algum tempo, durante um almoço entre amigos, surgiu uma frase que parece reaparecer sempre que homens falam sobre relações contemporâneas: “o problema foi o feminismo”. A frase veio acompanhada de nostalgia, de um saudosismo de um tempo em que, segundo ele, os homens cuidavam mais das mulheres, protegiam mais, assumiam mais responsabilidades. Em seguida vieram os exemplos clássicos, sociedades conservadoras, homens cavalheiros, mulheres “bem tratadas”, relações aparentemente mais organizadas. Mas a conversa me deixou preso a outra pergunta, talvez mais desconfortável do que a própria discussão inicial: quando esse cuidado limita a liberdade da mulher, isso ainda é cuidado?
A pergunta mudou completamente o eixo da conversa, porque talvez o problema contemporâneo não seja a ausência de cuidado, mas a dificuldade de distinguir cuidado de controle. Durante muitos anos vivendo na Inglaterra, algo me chamava atenção na figura masculina tradicional britânica. Havia um compromisso quase ritualístico com imagem, postura, discrição, educação, autocontrole e ética pública. O homem elegante não era apenas bem vestido. Ele parecia treinado para não ultrapassar certos limites, para controlar impulsos, para compreender que masculinidade não era apenas força, mas também contenção. O gentleman clássico carregava um entendimento importante: poder sem disciplina produzia vulgaridade.
Talvez seja exatamente isso que esteja desaparecendo. Hoje vemos homens que desejam os privilégios simbólicos da masculinidade tradicional, mas rejeitam suas obrigações éticas. Querem admiração sem responsabilidade, autoridade sem maturidade emocional, desejam ser vistos como protetores sem desenvolver a capacidade de conviver com mulheres livres. Existe uma mudança histórica importante acontecendo aqui e ela ajuda a explicar parte dessa tensão contemporânea.
Durante séculos, grande parte das sociedades organizou as relações entre homens e mulheres a partir da dependência feminina. O homem tinha acesso ao dinheiro, à vida pública, ao patrimônio, ao poder político e à liberdade sexual e, em troca, assumia a função de provedor e protetor. Muitos homens realmente amavam dentro dessa lógica, o que torna essa discussão mais complexa do que simplesmente dividir o mundo entre vilões e vítimas. O problema é que amar dentro de uma estrutura desigual não transforma automaticamente essa estrutura em justa.
A filósofa Simone de Beauvoir escreveu em O Segundo Sexo que a mulher foi historicamente construída como “o outro” do homem, não como sujeito pleno, mas como alguém cuja existência orbitava as necessidades masculinas. A mulher ideal era frequentemente descrita como delicada, virtuosa, obediente, dependente. Existe aqui uma armadilha emocional importante, porque muitos homens foram ensinados a acreditar que amar era administrar: administrar a roupa da mulher, o comportamento, as amizades, a sexualidade, os horários, os sonhos... Tudo isso frequentemente chamado de cuidado.
Por isso tantas mulheres relatam hoje terem vivido relações aparentemente protetoras que, olhando para trás, pareciam mais próximas de vigilância emocional. O filósofo Michel Foucault dedicou parte de sua obra a explicar como o poder raramente aparece apenas como violência explícita. Muitas vezes ele surge como moralidade, preocupação, norma social ou suposta proteção. O controle mais eficiente nem sempre é o que grita. Às vezes ele fala baixo, se apresenta como zelo, convence antes de impor. “Eu só quero cuidar de você” pode ser uma frase profundamente amorosa, mas também pode ser uma forma sofisticada de posse.
Esse é um dos motivos pelos quais tantas discussões sobre masculinidade acabam se tornando defensivas. Muitos homens não se reconhecem como violentos e, de fato, muitos não são violentos no sentido explícito da palavra. Eles apenas reproduzem modelos antigos de amor sem perceber que esses modelos dependiam da limitação da autonomia feminina. O problema é que o mundo mudou. As mulheres trabalham, viajam, sustentam casas, ocupam cargos de liderança, recusam maternidade, encerram relações, escolhem parceiros, vivem a própria sexualidade e constroem identidade para além da validação masculina. E isso criou uma crise profunda em parte dos homens, porque muitos foram educados para serem necessários, não para serem escolhidos.
Existe uma diferença brutal entre essas duas posições. Ser necessário produz poder. Ser escolhido exige caráter. Talvez essa seja uma das razões pelas quais tantos homens contemporâneos parecem perdidos entre extremos. Alguns tentam recuperar modelos antigos de autoridade, outros abandonam completamente qualquer senso de responsabilidade emocional e transformam relações em experiências descartáveis. Entre um polo e outro, vemos vínculos cada vez mais frágeis, ressentidos e confusos.
O sociólogo Zygmunt Bauman descreveu esse cenário como “modernidade líquida”, uma época em que identidades se tornaram instáveis, vínculos mais descartáveis, profundidade emocional frequentemente substituída por performance. Nas redes sociais, muitos homens performam masculinidade o tempo inteiro, exibem poder, dinheiro, conquista, domínio, superioridade, mas demonstram enorme fragilidade diante da autonomia feminina. Porque a independência da mulher expõe uma pergunta dolorosa: se ela não precisa de mim, por que ela me escolheria?
Talvez essa seja a grande crise masculina contemporânea, porque é mais fácil ser protetor quando o outro depende de você. O desafio verdadeiro é permanecer cuidadoso diante de alguém livre. E aqui existe algo importante que quase nunca é discutido. Muitos homens associam liberdade feminina à perda de valor masculino porque aprenderam masculinidade dentro de uma lógica hierárquica, uma lógica em que o homem ocupa o topo da estrutura. Quando a relação deixa de ser vertical e passa a ser horizontal, alguns homens sentem que perderam lugar. Mas talvez tenham perdido apenas privilégios antigos confundidos com identidade.
A escritora Bell Hooks dizia que o patriarcado não ensina homens a amar, ensina homens a exercer poder. Isso produz homens emocionalmente despreparados para relações verdadeiramente íntimas, porque intimidade exige vulnerabilidade, negociação, escuta, reconhecimento do outro como sujeito completo, não como extensão da própria vontade.
Ao mesmo tempo, também seria simplista fingir que toda crítica ao presente nasce de misoginia. Existe, sim, uma erosão contemporânea de valores importantes. Cortesia desapareceu, responsabilidade afetiva enfraqueceu, muitos homens perderam qualquer compromisso com ética pública, refinamento intelectual ou maturidade emocional. Existe uma infantilização masculina acontecendo em vários níveis. Mas isso não significa que o caminho seja retornar a modelos onde mulheres precisavam abrir mão da própria autonomia para receber cuidado. Uma mulher não deveria precisar ser pequena para que um homem se sinta grande.
Talvez o futuro das relações dependa exatamente dessa reconstrução, homens capazes de cuidar sem controlar, de admirar sem possuir, de proteger sem aprisionar, de amar sem administrar a existência do outro. Talvez o verdadeiro homem ético do século XXI não seja aquele que exige submissão para oferecer cuidado, mas aquele que continua gentil diante da liberdade, porque autocontrole sempre foi mais sofisticado do que controle sobre o outro.
Ramon Bennett
Consultor em Relacionamentos e Sexólogo
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